Sunday, December 21, 2008

suas roupas secaram
e minhas lembranças continuam úmidas
como se presas à placenta de um mundo feito pra dois
se nutrindo do açúcar que corre entre o que eu sou e o que posso ser

o açúcar salgado do improvável
o açúcar que a maré leva, salga e traz novamente doce
a metáfora sacal da água, da onda e do tempo
o imenso clichê que nos embala
como embala tudo que vive e respira

Friday, January 12, 2007

Mad Girl's Love Song


I shut my eyes and all the world drops dead;

I lift my lids and all is born again.

(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red,

And arbitrary blackness gallops in:

I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed

And sung me moon-struck, kissed me quite insane.

(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:

Exit seraphim and Satan's men:

I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you'd return the way you said,

But I grow old and I forget your name.

(I think I made you up inside my head.)

I should have loved a thunderbird instead;

At least when spring comes they roar back again.

I shut my eyes and all the world drops dead.

(I think I made you up inside my head.)


SYLVIA PLATH.

Thursday, July 06, 2006

Só o amanhecer faz com que demos valor às glórias do dia anterior. É preciso dormir, esquecer, arrefecer as esperanças, sentir a energia se desgastar por completo – só então o passado se torna algo realmente concreto. Só então podemos sentir seu peso sobre nossa efemeridade, sua tentativa de arregaçar o presente.

Só podemos sentir a pele do momento quando ele já é um corpo vazio, sem alma, sem presença, um momento-defunto que a noite esfriou e que jaz perfeitamente sereno diante de nossos olhos.

Só podemos sentir a vivacidade daquilo que está morto.

Tuesday, July 04, 2006

A expressão facial dele era estática: queixos discretos, músculos quietos e lábios contidos. A roupa, claustrofóbica: mangas compridas e calças jeans espessas, apesar do calor terrível que fazia naquela tarde de verão carioca. Os traços eram delicados, quase castos: nariz inofensivo, orelhas pequenas, cabelos finos. Um rosto angelical, agradável, um convite à compreensão e à amizade. A pureza se escondeu somente quando a fitou. Então ela percebeu que os olhos daquele homem eram cristais ardendo em fogo, olhos que pareciam retirados de um banho em vinagre, inchados e vermelhos. Uma trovoada num dia de sol. Uma gota de limão caindo e manchando seu corpo ardendo na luz.

Ele tinha passado pela roleta, pago o cobrador e sentado, tudo em questão de segundos. Segundos que pareciam um filme de uma hora meia pra ela, que agora era capaz de apontar cada movimento de cada músculo dele, cada pinta, cada sinal, as nuances da íris e a forma como ele olhou para os assentos. Ela já sabia de tudo, ela o sentiu integralmente desde quando ele entrou até quando procurou lugar. Carência é uma forma de afago e ela sabia disso desde cedo. Queria dar aquele homem o prazer de rasgar sua alma – nem que fosse por segundos. Nem que fosse para levá-la depois ao abate.

Sentada na fileira diametralmente oposta, ela o encarou. Quando o estranho retribuiu, ela enrubesceu, sentiu o calor nas bochechas e abriu a janela para sentir o vento. Que direito têm essas pessoas de te atirarem num círculo de curiosidade? É sempre a mesma história: enquanto você gira de olhos arregalados, o acaso ri sarcasticamente pelas costas, o acaso que sempre desdenha daqueles que apostam no livre-arbítrio. A liberdade de escolha, a vontade de conhecer o próprio destino... Ela sabia que todos que não confiam cegamente no acaso acabam gravemente feridos.

Mas a curiosidade, a grande inimiga do ocasional, estava ali, à espreita, na sombra daquele homem que também não disfarçava o interesse em se aproximar dela. Quando o lugar no assento ao lado vagou, ele aproveitou a oportunidade. Pediu licença e sentou-se. Um pedido de licença para invadir sua vida. Um pedido de licença para erguer seu desejo.

Naquele momento, ela não queria mais sentir a brisa fresca que entrava pela janela. Recostou a cabeça, fechou os olhos e tentou sentir a presença dele na escuridão. Sentiu uma mão encostar em seu braço esquerdo e se virou. Era ele que a cutucava, os olhos azuis muito firmes e sérios sondando em 180º todo o ônibus, voando por todos os cantos – mas nunca pousando nela. Ela achou encantador seu acanhamento e enrubesceu novamente por aquele homem. Deu um sorriso leve, de canto de boca, e antes que pudesse romper a barreira, antes que dissesse qualquer coisa, ele foi mais rápido e finalmente a encarou, sem tirar a mão do braço dela. E disse, dentes cerrados, a voz escapando com dificuldade por entre os lábios colados:

- Passa a bolsa ou eu te furo toda.

Tuesday, January 31, 2006

Sinais



Vermelho. A menina se aproxima do meio-fio e inicia o longo processo de espera. O vento não passa de um sopro quente, mas com força suficiente pra fazer dançar uma aba da saia. O sol são três toneladas de chumbo derretido caindo sobre sua cabeça. O calor faz nascer uma gota de suor nos ombros, uma gota que corre até o cóccix.
Vermelho. Tudo que era rosto agora é uma massa disforme de músculos retraídos, olhos incomodados, sobrancelhas cerradas, lábios salgados, faces quentes. Ela conta os carros pra fazer o tempo passar, um, dois três, quatro, ou cinco, acho que perdi um, devo contar só os da primeira fileira? O olhar se perde no espaço, não fixa ponto algum. Os olhos ainda estão lá, mas o olhar já se foi. Voou, deve ter buscado um lugar com ar condicionado.
Vermelho. Cansada do trânsito, ela olha para os edifícios. Não há futuro lá em cima, são dezenas de janelas com cabeças muito brancas para fora, velhos fumando, velhos falando sozinhos, velhos olhando o céu. Ela sente repúdio a tudo aquilo, os batimentos se aceleram com a idéia de um dia chegar tão perto da morte. Velhice sempre foi sinônimo de pele frouxa, olhos caídos, furos esgarçados nas orelhas, pêlos se soltando minuto a minuto, varizes gordas no tornozelo, sutiã sem elástico e calçolas bege. Horror, horror, ela volta a cabeça ainda mais pra cima pra tentar ver o último andar, mas o sol sai de trás de uma nuvem e o clarão lhe enruga os olhos.
Vermelho.
Outra dica importante para que a noite com ele seja inesquecível é escolher o perfume adequado. Mas, atenção, fragrâncias muito doces costumam ser desagradáveis para o olfato masculino. Além disso, procure não usar desodorante e perfume de odores diferentes. O homem dos seus sonhos pode ficar confuso quanto à sua verdadeira face. E tudo que você menos quer é parecer uma mulher de múltipla personalidade, não é mesmo?
Vermelho. Tira os olhos da revista da mulher ao lado. Ler mais de um parágrafo costuma cansar, exigir muito do raciocínio, e desde cedo ela aprendeu a respeitar os limites do cérebro. Se bem que a dica número 8, a Tonifique os glúteos nas horas vagas até parece interessante. Não é sempre que a gente pode estar na academia, e acho que essa dica vai ser útil pra mim. Posso até começar agora, nesse maldito sinal que não abre, é só contrair os músculos do traseiro lentamente e ninguém vai perceber nada. E depois de meses, quanta diferença vai fazer, todos meus amigos vão querer saber do truque.
Vermelho. O tempo gira em círculos, ela já sentiu isso antes, a sensação de perder a realidade por um momento e ir jogando pra fora tudo que vive, até não sentir nada dentro de si. Tédio até que era algo interessante pra garota, porque era só quando estava distraída e desocupada que sua alma vislumbrava uma possibilidade de se ocupar de coisas um pouco mais profundas.
Vermelho. A imagem daquele sujeito bem em frente aos seus olhos a faz voltar ao instante. Retorno desesperado, os sentimentos voltando esbaforidos, tentando trazer toda a bagagem a tempo. Seria melhor que não tivessem chegado. Porque agora ela pode sentir os cheiros que saem daquele corpo negro, seria a cor natural ou sujeira?, podia ver os cabelos despenteados formando um bloco único. É muito cheiro de lixo pros meus sentidos, melhor sair correndo, senão daqui a pouco não consigo almoçar.
Vermelho. Os olhos do mendigo estão lá, vermelhos, inchados, grandes e expressivos, têm frases inteiras escritas nas pupilas, frases de sarcasmo e petulância, frases em que acusa a menininha rica pelo seu estado miserável, frases sempre sóbrias, ao contrário do seu corpo. Quanto mais ela entende as mensagens, mais repugnância sente, tenta prender o ar por segundos pra não sentir aquele cheiro, tenta jogar o olhar pra longe de novo, mas dessa vez não dá, dessa vez tudo que ela é se entrega àquela visão, tudo que ela é se une na primeira fileira pra assistir o espetáculo. Coitado dele, deve estar com fome, mas conheço esse joguinho de pobre. Você dá mole, eles jogam na cara que a culpa é tua e que você sempre tem que dar um pouquinho mais.
Verde, finalmente verde. Ela tenta atravessar a rua, mas aquele ser emite um som estranho, uns fonemas mal articulados, e sorri com maldade. Ela não consegue se mover, sabe que corre o risco de ser agarrada pelo braço ou coisa parecida quando tentar cruzar o seu caminho. Ele olha o corpo dela de cima a baixo e se detém nos seios redondos, bem presos e erguidos pelo decote da blusa azul. Ela se incomoda, cobre o colo com a revista. Ele faz cara de contrariado. Ela dá um passo pra trás. Ele, dois pra frente. Ela tem ânsia de vômito. Ele saliva.
Verde. Num ímpeto de coragem, ela desce do meio-fio e atinge a rua. E se eu não conseguir nunca mais sair daqui? As gotas de suor provocadas pelo calor agora se misturam com as provocadas pelo nervosismo. Quanto mais ela limpa as mãos molhadas na calça, mais o sorriso negro do mendigo se ilumina. Eu olho e tudo que vejo é o vazio escuro e sem saída.
Vermelho. Tão acelerados quanto o coração dela, só os carros, que já passam muito rente ao seu desespero. Ela se assusta com as buzinas, ensaia voltar, mas a essa altura o homem já armou uma encruzilhada e a espera na calçada, braços cruzados, olhar ameaçador. Se antes sua expressão era leve, curiosa, portadora de um certo desejo, agora já era de desafio. E ela tinha entendido o recado.
A menina se lança à frente.
Vermelho.

Saturday, September 10, 2005

A criança que roia a bic
molhava de lama a manga
Brincando de equilíbrio ao meio-fio
agarrada à mão paterna
dois passos adiante
lambeu a sarjeta

Salgada em lágrima
seduziu a culpa
e a culpa vela acesa
a culpa rosa e espinho
Dois passos adiante
dois dedos adentro
ardeu em seu ventre

A criança que beijava a boneca
tocava o travesseiro impuro
premida entre o casal
cutículas em chamas
Dois passos adiante
incestuosa criança

Dois passos adiante
Dois dedos adentro
Um lençol acima

A criança explode.
Contamina a terra
de seus homens,
de seus amores,
com seu sorriso armado

Seu suor radioativo.

Sunday, August 28, 2005

Agarrada à hélice do ventilador, ela girava de olhos fechados. Bêbada, tonta, em prantos. Não notava que suas mãos estavam machucadas, suas mãos que não podiam suportar o girar permanente, seus dedos que não tinham mais elasticidade. Sangrava enquanto rodava e não sentia a dor porque o movimento circular a anestesiava, o frio na barriga que ia e vinha, o frio que a comia por dentro. O frio que refrescava suas entranhas, sempre quentes, sempre em estado de ebulição.

Ela nunca quis parar de girar, porque sabia que cada vez que via o mesmo ponto pela vigésima, trigésima vez, seus olhos não eram mais os mesmos. E, pela novidade, ela desejou ver outros pontos, outras paisagens, aguentava as feridas que sangravam, aguentava a tontura do girar permanente. Ela aguentou tudo. Ela sangrou e chorou, sua cabeça doeu, seus músculos se contraíram, enquanto girava e girava e griava e girava. Ela penou. Mas ela viu a beleza em cada giro. Em cada rotação ela buscou o melhor.

Mas um dia ela desceu, tonta, nauseada, as mãos cansadas. Seu mundo ainda girava porque não sentia a terra firme. Tentou andar. Engatinhou. Caiu aqui, levantou ali, esbarrou, ganhou hematomas. Olhou pro ventilador, teve vontade de voltar a rodar. Mas olhou pras suas feridas, notou que não sangravam mais. Não estava mais tonta. Sentia a delicadeza do chão firme e duro em seus pés descalços. O chão que não tinha movimento, era tão homogêneo e sem cores. Qual era a graça? Ela ainda não sabia, mas ela sorriu, tranqüila, aliviada, a consciência limpa.

E então ela deitou no chão, o chão que recebeu seu corpo e sua cabeça com generosidade, o chão que a protegeu. Olhou pro ventilador ao alto, sorriu e fechou os olhos. Ela era agora uma filha da terra. E ninguém jamais tiraria isso dela.